domingo, 15 de setembro de 2024

A Ciência Como Uma Vela No Escuro


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Aristarco de Samos  (310 a.C. - 230 a.C.) encontrou um livro que consiste de algumas hipóteses nas quais as premissas levam à conclusão de que o universo é muitas vezes maior do que o atualmente reconhecido. Suas hipóteses são de que as estrelas fixas e o Sol não se movem, que a Terra gira em torno do Sol na circunferência de um círculo, o Sol repousando no meio da órbita. 

—Arquimedes, O Calculista do Tempo.



Por milhares de anos, a humanidade foi obscurecida por respostas simples a temas complexos. Por que não choveu nessa colheita? Por que o rio secou? Por que o solo não dá mais frutos? Por que ficamos doentes? Simples: o universo é uma marionete cujos cordões são movidos por deuses ou deusas, invisíveis e impossíveis de serem compreendidos em toda sua magnitude.

    Porém, há 2.500 anos houve um glorioso despertar em Jônia: em Samos e outras colônias gregas próximas que cresciam entre ilhas e enseadas do leste movimentado do mar Egeu. Repetidamente surgiram pessoas que acreditavam que tudo era feito de átomos; os seres humanos e os outros animais tinham surgido de formas mais simples, que as doenças não eram causadas por demônios ou deuses, que a Terra era somente um planeta girando em torno do Sol, e que as estrelas estavam muito, mas muito longe.

    Esta revolução fez surgir do incompreensível, a ciência. O universo é compreensível, argumentavam os antigos jônicos, porque apresenta uma ordem interna: há regularidades na natureza que permitem que os seus segredos sejam desvendados.

    O primeiro cientista jônico foi Tales, de Mileto,  que provou teoremas de geometria, demonstrado evitando sua árdua análise por Euclides três séculos depois — por exemplo, a proposição que os ângulos da base de um triângulo isósceles são iguais — . Há uma clara continuidade do esforço intelectual de Tales e Euclides por Isaac Newton, 2 mil anos depois, evento que acelerou a ciência e a tecnologia modernas.

    Anaximandro de Mileto era amigo e colega de Tales, foi a primeira pessoa na Grécia a fazer um relógio de sol; Argumentava que somos tão desamparados ao nascer, que se os primeiros bebês fossem colocados no mundo e deixados a sós, talvez morressem de imediato. Partindo daí, Anaximandro concluía que os seres humanos surgiram de outros animais com recém-nascidos mais capazes.  Mais de 2 mil anos antes da teoria evolutiva por Darwin-Wallace, propôs a geração espontânea da vida na lama, os primeiros animais tendo sido peixes cobertos por espinhos. Alguns descendentes desses peixes abandonaram eventualmente a água e dirigiram-se para a terra seca, onde evoluíram em outros animais por transmutação de um tipo para outro.

    Cuvier (1798 d.C.) estabeleceu a extinção como um fato que qualquer futura teoria científica da vida deveria explicar. No entanto, Empédocles, que prosperou em torno do ano 450 a.C., acreditava que a luz se deslocava com muita rapidez, mas não infinitamente rápido. Ensinava que tinha existido uma grande variedade de seres na Terra, mas que muitas raças de seres "foram incapazes de procriar e dar continuação à sua espécie". 

    Em uma época que ninguém tinha ouvido falar em crateras de impacto, Demócrito (460 a.C.) pensava que os mundos colidiam ocasionalmente; acreditava que alguns mundos vagavam sozinhos na escuridão do espaço, enquanto outros eram acompanhados de vários sóis e luas; que alguns mundos eram habitados, e outros não tinham plantas, animais e sequer água; que as formas mais simples de vida surgiram de um tipo de lama primitiva. Precedendo John Dalton por mais de 2 mil anos, Demócrito inventou a palavra átomo, correspondente grego para "incapaz de ser partido". Os átomos eram as últimas partículas, frustrando para sempre as nossas tentativas de parti-las em pedaços menores. Tudo, dizia ele, é uma coleção de átomos, intrincadamente reunida. Até nós. "Nada existe, a não ser átomos e o vácuo."

    Em um exercício Demócrito imaginou o cálculo do volume de um cone ou de uma pirâmide por um grande número de placas marcadas, extremamente pequenas, que vão diminuindo de tamanho da base para o ápice. Ele expôs o problema que, em matemática, é chamado de teoria dos limites. Estava batendo à porta do cálculo diferencial e integrai, a ferramenta fundamental na compreensão do mundo que não era, até onde sabemos através de registros que nos chegaram, realmente descoberto até Isaac Newton. Talvez se o trabalho de Demócrito não tivesse sido inteiramente destruído, tivesse havido cálculo na época de Cristo. 

    A influência jônica e o método experimental espalharam-se pela Grécia, Itália e Sicília. Entretanto, em sua época, a breve tradição de tolerância pelas visões não convencionais começaram a desgastar-se e depois a romper-se. As pessoas começaram a ser punidas por expor ideias diferentes. Seus conhecimentos foram suprimidos, sua influência na história, diminuída. Os místicos estavam começando a vencer.

    Os grandes cientistas, de Tales a Demócrito e Anaxágoras, foram geralmente descritos nos livros de filosofia ou de história como pré-socráticos, como se a sua principal função tivesse sido sustentar a essência filosófica até Sócrates, Platão e Aristóteles, e talvez influenciá-los um pouco. Ao invés disto, os jônicos antigos representam uma tradição diferente e bem contraditória, encontrando-se em um aspecto de acordo com a ciência moderna. Pela sua influência ter sido poderosa somente por dois ou três séculos, houve uma perda irreparável para todos os seres humanos que viveram entre o Despertar Jônico e o Renascimento Italiano. 

    Após o período jônico, filósofos como Platão e Aristóteles ganharam grande proeminência. Platão, em particular, enfatizava o mundo das ideias, e Aristóteles desenvolveu um sistema filosófico muito abrangente, que acabou dominando a filosofia ocidental por séculos. A abordagem mais especulativa dos filósofos jônicos, focada em causas naturais, acabou sendo obscurecida por essas correntes de pensamento.

    Com o declínio da Grécia, a ascensão do Império Romano, e posteriormente o com a expansão do cristianismo no Império Romano, houve uma tendência de rejeitar o pensamento pagão, especialmente as ideias que contradiziam a visão cristã de mundo. Como os jônicos apresentavam explicações naturais para o cosmos, sem recorrer a deuses ou forças sobrenaturais, suas ideias foram vistas como incompatíveis com a teologia cristã. 

    No reconhecimento de Pitágoras e Platão que o Cosmos é compreensível, e que há um suporte matemático em relação à Natureza, existe um grande avanço da ciência. Mas, na supressão dos fatos,  informações, eventos ou verdades que causam desconforto, na ideia de que a ciência deveria ser guardada para uma elite restrita, na aversão pela experiência, na aceitação do misticismo e na fácil aceitação das sociedades com escravos, eles atrasaram o empreendimento científico humano. Isso trouxe um fim à hibernação do misticismo científico, o mundo ocidental despertou. A experimentação e a inquisição livre tornaram-se mais uma vez respeitadas. 

    Diz-se que dos setenta e três livros escritos por Demócrito, nenhum permaneceu. Tudo o que temos conhecimento são fragmentos, principalmente sobre ética e justificativas não originais. O mesmo se aplica a quase todos os outros antigos cientistas jônicos.

    Mais de 2 mil anos depois, livros e fragmentos esquecidos voltaram a ser lidos. Da Vinci, Colombo e Copérnico, reacenderam a chama científica que estava apagada por séculos. Período esse que possibilitou o avanço de diversos campos do conhecimento, introduzindo novamente a humanidade em um contexto de desenvolvimento social e tecnológico.

    A história nos mostra que, assim como a ciência foi redescoberta após milhares de anos de obscuridão, ela também pode ser esquecida ou suprimida novamente, se não for devidamente zelada.  A ignorância das verdades científicas leva ao retrocesso, à desinformação e ao surgimento de ideias equivocadas que podem dominar a opinião pública. Somente tendo a ciência como uma vela que nos guia no escuro,  evitaremos outro "apagão da razão", e asseguraremos que as conquistas científicas que tanto beneficiam a humanidade, continuem a ser disseminadas e reconhecidas, garantindo assim, uma melhora contínua na qualidade de vida da sociedade como um todo.









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