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Aristarco de Samos (310 a.C. - 230 a.C.) encontrou um livro que consiste de
algumas hipóteses nas quais as premissas levam à conclusão de que o
universo é muitas vezes maior do que o atualmente reconhecido. Suas
hipóteses são de que as estrelas fixas e o Sol não se movem, que a Terra
gira em torno do Sol na circunferência de um círculo, o Sol repousando no
meio da órbita.
—Arquimedes, O Calculista do Tempo.
Por milhares de anos, a humanidade foi obscurecida por respostas simples a temas complexos. Por que não choveu nessa colheita? Por que o rio secou? Por que o solo não dá mais frutos? Por que ficamos doentes? Simples: o universo é uma marionete cujos cordões são movidos por deuses ou deusas, invisíveis e impossíveis de serem compreendidos em toda sua magnitude.
Porém, há 2.500
anos houve um glorioso despertar em Jônia: em Samos e outras
colônias gregas próximas que cresciam entre ilhas e enseadas
do leste movimentado do mar Egeu. Repetidamente surgiram
pessoas que acreditavam que tudo era feito de átomos; os seres
humanos e os outros animais tinham surgido de formas mais
simples, que as doenças não eram causadas por demônios ou
deuses, que a Terra era somente um planeta girando em torno do
Sol, e que as estrelas estavam muito, mas muito longe.
Esta revolução fez surgir do incompreensível, a ciência. O universo é compreensível, argumentavam os antigos jônicos, porque apresenta uma ordem
interna: há regularidades na natureza que permitem que os seus
segredos sejam desvendados.
O primeiro cientista jônico foi Tales, de Mileto, que provou teoremas de geometria, demonstrado evitando sua árdua análise por Euclides três
séculos depois — por exemplo, a proposição que os ângulos da
base de um triângulo isósceles são iguais — . Há uma clara continuidade do esforço intelectual de Tales e Euclides por Isaac Newton, 2 mil anos depois, evento que acelerou a ciência e a
tecnologia modernas.
Anaximandro de Mileto era amigo e colega de Tales, foi a primeira pessoa
na Grécia a fazer um relógio de sol; Argumentava que somos tão desamparados ao nascer,
que se os primeiros bebês fossem colocados no mundo e
deixados a sós, talvez morressem de imediato. Partindo daí,
Anaximandro concluía que os seres humanos surgiram de outros
animais com recém-nascidos mais capazes. Mais de 2 mil anos antes da teoria evolutiva por Darwin-Wallace, propôs a geração
espontânea da vida na lama, os primeiros animais tendo sido
peixes cobertos por espinhos. Alguns descendentes desses
peixes abandonaram eventualmente a água e dirigiram-se para a
terra seca, onde evoluíram em outros animais por transmutação
de um tipo para outro.
Cuvier (1798 d.C.) estabeleceu a extinção como um fato que qualquer futura teoria científica da vida deveria explicar. No entanto, Empédocles, que
prosperou em torno do ano 450 a.C., acreditava que a luz
se deslocava com muita rapidez, mas não infinitamente rápido.
Ensinava que tinha existido uma grande variedade de seres na
Terra, mas que muitas raças de seres "foram incapazes de procriar
e dar continuação à sua espécie".
Em uma época que ninguém
tinha ouvido falar em crateras de impacto, Demócrito (460 a.C.) pensava
que os mundos colidiam ocasionalmente; acreditava que alguns
mundos vagavam sozinhos na escuridão do espaço, enquanto
outros eram acompanhados de vários sóis e luas; que alguns
mundos eram habitados, e outros não tinham plantas, animais e
sequer água; que as formas mais simples de vida surgiram de
um tipo de lama primitiva. Precedendo John Dalton por mais de 2 mil anos, Demócrito inventou a palavra átomo, correspondente
grego para "incapaz de ser partido". Os átomos eram as últimas
partículas, frustrando para sempre as nossas tentativas de parti-las em pedaços menores. Tudo, dizia ele, é uma coleção de
átomos, intrincadamente reunida. Até nós. "Nada existe, a não
ser átomos e o vácuo."
Em um exercício Demócrito imaginou o cálculo do volume
de um cone ou de uma pirâmide por um grande número de
placas marcadas, extremamente pequenas, que vão diminuindo
de tamanho da base para o ápice. Ele expôs o problema que, em
matemática, é chamado de teoria dos limites. Estava batendo à
porta do cálculo diferencial e integrai, a ferramenta fundamental
na compreensão do mundo que não era, até onde sabemos
através de registros que nos chegaram, realmente descoberto
até Isaac Newton. Talvez se o trabalho de Demócrito não tivesse
sido inteiramente destruído, tivesse havido cálculo na época de
Cristo.
A influência jônica e o método experimental espalharam-se
pela Grécia, Itália e Sicília. Entretanto, em sua
época, a breve tradição de tolerância pelas visões não convencionais começaram a desgastar-se e depois a romper-se. As
pessoas começaram a ser punidas por expor ideias diferentes. Seus
conhecimentos foram suprimidos, sua influência na história,
diminuída. Os místicos estavam começando a vencer.
Os grandes cientistas, de Tales a Demócrito e
Anaxágoras, foram geralmente descritos nos livros de filosofia ou
de história como pré-socráticos, como se a sua principal função
tivesse sido sustentar a essência filosófica até Sócrates, Platão e
Aristóteles, e talvez influenciá-los um pouco. Ao invés disto, os
jônicos antigos representam uma tradição diferente e bem
contraditória, encontrando-se em um aspecto de acordo com a
ciência moderna. Pela sua influência ter sido poderosa somente
por dois ou três séculos, houve uma perda irreparável para todos
os seres humanos que viveram entre o Despertar Jônico e o
Renascimento Italiano.
Após o período jônico, filósofos como Platão e Aristóteles ganharam grande proeminência. Platão, em particular, enfatizava o mundo das ideias, e Aristóteles desenvolveu um sistema filosófico muito abrangente, que acabou dominando a filosofia ocidental por séculos. A abordagem mais especulativa dos filósofos jônicos, focada em causas naturais, acabou sendo obscurecida por essas correntes de pensamento.
Com o declínio da Grécia, a ascensão do Império Romano, e posteriormente o com a expansão do cristianismo no Império Romano, houve uma tendência de rejeitar o pensamento pagão, especialmente as ideias que contradiziam a visão cristã de mundo. Como os jônicos apresentavam explicações naturais para o cosmos, sem recorrer a deuses ou forças sobrenaturais, suas ideias foram vistas como incompatíveis com a teologia cristã.
No reconhecimento de Pitágoras e Platão que o Cosmos é compreensível, e que há um suporte matemático em relação à Natureza, existe um grande avanço da ciência. Mas, na supressão dos fatos, informações, eventos ou verdades que causam desconforto, na ideia de que a ciência deveria ser guardada para uma elite restrita, na aversão pela experiência, na aceitação do misticismo e na fácil aceitação das sociedades com escravos, eles atrasaram o empreendimento científico humano. Isso trouxe um fim à hibernação do misticismo científico, o mundo ocidental despertou. A experimentação e a inquisição livre tornaram-se mais uma vez respeitadas.
Diz-se que dos setenta e três livros escritos por
Demócrito, nenhum permaneceu. Tudo o que temos conhecimento
são fragmentos, principalmente sobre ética e justificativas não
originais. O mesmo se aplica a quase todos os outros antigos
cientistas jônicos.
Mais de 2 mil anos depois, livros e fragmentos esquecidos voltaram a ser lidos. Da Vinci, Colombo e Copérnico, reacenderam a chama científica que estava apagada por séculos. Período esse que possibilitou o avanço de diversos campos do conhecimento, introduzindo novamente a humanidade em um contexto de desenvolvimento social e tecnológico.
A história nos mostra que, assim como a ciência foi redescoberta após milhares de anos de obscuridão, ela também pode ser esquecida ou suprimida novamente, se não for devidamente zelada. A ignorância das verdades científicas leva ao retrocesso, à desinformação e ao surgimento de ideias equivocadas que podem dominar a opinião pública. Somente tendo a ciência como uma vela que nos guia no escuro, evitaremos outro "apagão da razão", e asseguraremos que as conquistas científicas que tanto beneficiam a humanidade, continuem a ser disseminadas e reconhecidas, garantindo assim, uma melhora contínua na qualidade de vida da sociedade como um todo.